{"id":19348,"date":"2021-10-07T09:00:00","date_gmt":"2021-10-07T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/colecaolivrodeartista.wordpress.com\/?p=19348"},"modified":"2021-10-07T09:00:00","modified_gmt":"2021-10-07T12:00:00","slug":"saudades-de-um-punhal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/colecaolivrodeartista.eba.ufmg.br\/?p=19348","title":{"rendered":"Saudades de um punhal"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><a href=\"http:\/\/colecaolivrodeartista.eba.ufmg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/capturar.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/colecaolivrodeartista.eba.ufmg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/capturar.jpg?w=586\" alt=\"\" class=\"wp-image-19349\" width=\"435\" height=\"339\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"line-height:0;\">Leila Danziger<\/p>\n\n\n\n<p style=\"line-height:0;\">Saudades de um punhal &#8211; Carol D&#8217;Ultra Vaz<\/p>\n\n\n\n<p style=\"line-height:0;\">Rio de Janeiro, Arm\u00e1rios Azuis, 2019<\/p>\n\n\n\n<p style=\"line-height:0;\">128 p.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"line-height:0;\">13 x 19 cm<\/p>\n\n\n\n<p style=\"line-height:0;\">200 ex.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"line-height:0;\">ISBN 978-65-901182-0-2<\/p>\n\n\n\n<p><br>Em novembro de 2008, dei in\u00edcio a um blog \u2013 esparso, lento, ocasional. Via-o como extens\u00e3o p\u00fablica do ateli\u00ea. Pensava-o sem leitores, a n\u00e3o ser por uma amiga francesa, t\u00e3o querida quanto distante, que vivia ent\u00e3o na Nova Caled\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em abril de 2009, ao acessar o blog, encontrei um coment\u00e1rio sobre um texto que eu havia publicado sobre meu pai. Dias depois, a mesma pessoa retornou. Deixou outros dois coment\u00e1rios. Conversamos sobre poesia (Paul Celan, Yehuda Amichai), barcos em mares que n\u00e3o existem, xales de ora\u00e7\u00e3o, vestidos que se animam com o vento, djellabas. Brinquei que assim talvez passasse a levar meu suposto blog a s\u00e9rio. Dia sim, dia n\u00e3o, passei a visit\u00e1-la tamb\u00e9m e ver o que escrevia em Saudades de um punhal, seu blog mantido com regularidade, cujo t\u00edtulo fazia alus\u00e3o a um conto de Robert Walser (\u201cSehnsucht nach einem Dolch\u201d, 1917).<\/p>\n\n\n\n<p>Certo dia, ao visitar seu blog, n\u00e3o encontrei nenhuma nova postagem, mas um coment\u00e1rio trazia a not\u00edcia de sua morte, ocorrida em S\u00e3o Paulo, em uma madrugada fria de s\u00e1bado, 30 de maio de 2009. N\u00e3o sei mais o que se passava no mundo naquele dia, mas em minha agenda, encontrei a anota\u00e7\u00e3o: \u201cabrir avenidas pela casa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Penso ainda nesse encontro, cuja dura\u00e7\u00e3o foi a de um f\u00f3sforo que se acende e se apaga. Nos esbarramos em uma cal\u00e7ada, enquanto segu\u00edamos em dire\u00e7\u00f5es opostas na multid\u00e3o. Ela deixou deixa cair um objeto. Eu o recolho, quero devolv\u00ea-lo, ainda corro em sua dire\u00e7\u00e3o, tento localizar seu vulto de costas (\u00e9 assim que ela se mostra em seu perfil on line). Procuro decifrar a fric\u00e7\u00e3o desse encontro feito apenas de escrita, reter o objeto deixado para tr\u00e1s. Guardo a lembran\u00e7a de sua \u00faltima postagem, que descrevia um percurso de algu\u00e9m arduamente treinado em inconst\u00e2ncias, uma fuga-em-abismo por entre esta\u00e7\u00f5es de metr\u00f4 e linhas de \u00f4nibus, cujo ponto de chegada era o link para um outro blog.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre outras caracter\u00edsticas, ela se identificava como \u201cchronically melancholic, great cook, obsessed with psychoanalysis and detective novels, lazy in the mornings and sarcastic at nights\u201d. Tinha trinta e dois anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste livro, retomo a promessa feita em uma publica\u00e7\u00e3o de 2014: a de recolher e editar vest\u00edgios da escrita de Carol D\u2019Utra Vaz na internet. Com o desaparecimento de seu blog, recolhi algumas de suas postagens no Facebook e, em menor n\u00famero no Twitter, onde n\u00e3o estivemos em contato, pois em 2009, eu n\u00e3o estava em nenhuma rede social..<\/p>\n\n\n\n<p>Percebo que h\u00e1 uma grada\u00e7\u00e3o em sua escrita praticada nos diferentes meios em que esteve atuante: no blog, as postagens oscilavam entre o coment\u00e1rio, o ensaio breve e o poema em prosa, se me lembro bem. No Facebook, ela faz pouco uso de imagens e aproveita a forma como seu nome aparece na plataforma, integrando-o muitas vezes como sujeito de suas frases \u2013 brev\u00edssimas e confessionais \u2013 em que a ang\u00fastia extrema e o humor s\u00e3o insepar\u00e1veis (feliz &amp; sangrando, escreve em 26 de abril). No Twitter, sua voz vai vai-se tornando espessa, escura, n\u00e1ufraga.<\/p>\n\n\n\n<p>Volver, volver, volver, repete em 27 de mar\u00e7o, antes de se entregar aos or\u00e1culos do Facebook. Que bruja eres? Which Shakespearean character would you be? Which philosopher are you? Em abril, pensa em comprar um cadeado de diamantes, cantarola Sinatra, devaneia, procrastina, se apaixona pelo Pior Homem do Mundo, e, quando a ins\u00f4nia permite, sonha, sonha muito (com ouri\u00e7os do mar, com palavras cruzadas ou em alem\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p>Se quase todos os links compartilhados em suas postagens se tornaram indispon\u00edveis, a intertextualidade ativada pelos fragmentos que compartilhou segue viva. Cita com paix\u00e3o: Herbert Helder, Sylvia Plath, Pessoa e, claro, Paul Celan, que \u00e9 o nome de seu gato \u201cmiador\u201d. \u201cS\u00f3 Celan salva\u201d, escreve.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 17 de maio, compartilha um an\u00fancio de algu\u00e9m em busca de companhia para viajar no tempo (sem garantias, adverte o anunciante.) Minha aposta \u00e9 que ela n\u00e3o escolheria o passado. O vetor temporal do que lan\u00e7a na rede \u00e9 mesmo o futuro. Em 24 de fevereiro, anuncia uma casa nova, em 24 de maio canta \u201ctengo um&nbsp; un nuevo amor\u201d. Havia uma pesquisa de mestrado no horizonte. Havia horizonte.<\/p>\n\n\n\n<p>E resta uma voz, uma escrita t\u00eanue, embrion\u00e1ria, decididamente polif\u00f4nica, \u00e1vida por interlocu\u00e7\u00e3o, cujos vest\u00edgios re\u00fano aqui. Sigo a cronologia de suas publica\u00e7\u00f5es, todas realizadas entre fevereiro e maio de 2009. Admiro sua concis\u00e3o em tempos t\u00e3o prolixos, sua auto-ironia e, sobretudo, sua necessidade de poesia, cinema e m\u00fasica, elementos que lhe eram vitais como o ar.<\/p>\n\n\n\n<p>Em di\u00e1logo obl\u00edquo com sua escrita na rede, ofere\u00e7o meus cadernos, alguns guardados desde o final da d\u00e9cada de 1980. S\u00e3o objetos da intimidade, ensimesmados talvez. Ao contr\u00e1rio das postagens nas redes sociais, n\u00e3o foram feitos para ser compartilhados, sen\u00e3o como a imagem do que se esconde, do que se perde, do que \u00e9 em v\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><a href=\"http:\/\/colecaolivrodeartista.eba.ufmg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/djalh.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/colecaolivrodeartista.eba.ufmg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/djalh.jpg?w=563\" alt=\"\" class=\"wp-image-19356\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><a href=\"http:\/\/colecaolivrodeartista.eba.ufmg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/jhlhfn.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/colecaolivrodeartista.eba.ufmg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/jhlhfn.jpg?w=544\" alt=\"\" class=\"wp-image-19353\" width=\"507\" height=\"413\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><a href=\"http:\/\/colecaolivrodeartista.eba.ufmg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/nklfn.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/colecaolivrodeartista.eba.ufmg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/nklfn.jpg?w=565\" alt=\"\" class=\"wp-image-19355\" width=\"478\" height=\"378\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><a href=\"http:\/\/colecaolivrodeartista.eba.ufmg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/khnfjk.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/colecaolivrodeartista.eba.ufmg.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/khnfjk.jpg?w=534\" alt=\"\" class=\"wp-image-19358\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<p>https:\/\/www.armariosazuis.com\/saudades-de-um-punhal<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leila Danziger Saudades de um punhal &#8211; Carol D&#8217;Ultra Vaz Rio de Janeiro, Arm\u00e1rios Azuis, 2019 128 p. 13 x 19 cm 200 ex. 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