{"id":1040,"date":"2012-04-30T20:18:29","date_gmt":"2012-04-30T20:18:29","guid":{"rendered":"http:\/\/seminariolivrodeartista.wordpress.com\/?p=1040"},"modified":"2012-04-30T20:18:29","modified_gmt":"2012-04-30T20:18:29","slug":"glauco-mattoso-jornal-dobrabil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/colecaolivrodeartista.eba.ufmg.br\/?p=1040","title":{"rendered":"Jornal Dobrabil"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/seminariolivrodeartista.files.wordpress.com\/2012\/04\/glauco-mattoso_dobrabil.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1041\" title=\"GLAUCO MATTOSO_DOBRABIL\" src=\"http:\/\/seminariolivrodeartista.files.wordpress.com\/2012\/04\/glauco-mattoso_dobrabil.jpg\" alt=\"\" width=\"317\" height=\"400\"><\/a>Glauco Mattoso. Jornal Dobrabil<br \/>\nS\u00e3o Paulo: Iluminuras, 2001.<\/p>\n<p>Glauco Mattoso<\/p>\n<blockquote><p>Em 1977, quando morava no Rio, dei in\u00edcio \u00e0 publica\u00e7\u00e3o dum boletim sat\u00edrico cuja repercuss\u00e3o superou minhas expectativas mais ambiciosas. Trata\u2011se do JORNAL DOBRABIL, t\u00edtulo que trocadilha com o JB e com a dobrabilidade duma \u00fanica folha de papel tamanho of\u00edcio, em que se resumia o volante. Era o <span style=\"text-decoration:underline;\">auge <\/span>da chamada literatura marginal, dos poetas do mime\u00f3grafo &amp; da imprensa alternativa. Como eu vivia s\u00f3 e sem amigos, n\u00e3o dispunha sequer do esquema de mutir\u00e3o das patotas tipo Nuvem Cigana, Pinda\u00edba ou Sanguinovo. Contava apenas com a m\u00e1quina de escrever (manual, of course) e o xerox da copiadora mais pr\u00f3xima. O resto ficava a cargo da criatividade. E foi justamente pra ironizar essa criatividade t\u00e3o desprovida de infra\u2011estrutura que me propus a satirizar todas as estruturas, incluindo o pr\u00f3prio ato de cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Juntei os ingredientes pertinentes \u2011 o tosco simulacro de grande imprensa; a par\u00f3dia de chav\u00f5es liter\u00e1rios; o contraste ins\u00f3lito entre conceitos eruditos\/ vanguardistas e efeitos escatol\u00f3gicos do mais chulo n\u00edvel; a apologia do pl\u00e1gio &amp; do ap\u00f3crifo, bem como a nega\u00e7\u00e3o de toda autoridade intelectual atrav\u00e9s da subvers\u00e3o da pr\u00f3pria autoria \u2011 e apresentei essa mix\u00f3rdia sob a forma de datilografia artesanal onde as letras garrafais eram constru\u00eddas por uma &#8220;computa\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica&#8221; puramente &#8220;olhom\u00e9trica&#8221; &amp; rudimentar. Cada folha, xerocada frente e verso, era enviada como carta a destinat\u00e1rios escolhidos a dedo entre as cabe\u00e7as pensantes formadoras de opini\u00e3o dentro da intelligentsia &amp; da m\u00eddia (Mill\u00f4r, Caetano, Houaiss, Augusto de Campos, Pignatari), e foi gra\u00e7as a tal estrat\u00e9gia que uma tiragem rid\u00edcula de 100 ou 200 c\u00f3pias ganhou dimens\u00e3o de &#8220;circula\u00e7\u00e3o&#8221; e &#8220;influ\u00eancia&#8221;, a ponto semear procedimentos posteriormente aproveitados por outros \u00f3rg\u00e3os de humor, como a MATRACA e o PLANETA DI\u00c1RIO, que adotaram &#8220;manchetes&#8221; calemburistas ao estilo Dobrabil (uma de minhas primeiras foi &#8220;Falc\u00e3o vira arara&#8221; numa \u00e9poca em que o ministro da justi\u00e7a n\u00e3o deixava passar nem o Feliz ano novo do Rubem, quanto mais o Feliz ano velho do Rubens). Outro recurso largamente difundido foi a se\u00e7\u00e3o de cartas \u00e0 reda\u00e7\u00e3o onde se misturavam opini\u00f5es aut\u00eanticas com forjadas, todas debochadamente respondidas, de modo a fazer com que o leitor perdesse quaisquer referenciais de veracidade. Ap\u00f3s quatro anos de periodicidade irregular\u00edssima, reproduzi em 81 os 53 &#8220;n\u00fameros&#8221; do Dobrabil num \u00e1lbum luxuosamente impresso, lancei dois fasc\u00edculos da REVISTA DEDO MINGO, sua sucessora de breve vida, e parti pra outras iniciativas na \u00e1rea da poesia, do humor e do ensaio. Ficou, por\u00e9m, a imagem do Dobrabil ligada a uma atitude irreverente &amp; iconoclasta, que n\u00e3o poupava a pr\u00f3pria imprensa marginal e nem mesmo a &#8220;originalidade&#8221; que me atribu\u00edam, a despeito de antecedentes pr\u00f3ximos ou remotos, como o PASQUIM e a REVISTA DE ANTROPOFAGIA.<\/p><\/blockquote>\n<p><a href=\"http:\/\/colecaolivrodeartista.eba.ufmg.br\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/mattoso00024.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-2425\" src=\"http:\/\/colecaolivrodeartista.files.wordpress.com\/2012\/04\/mattoso00024.jpg\" alt=\"mattoso00024\" width=\"584\" height=\"411\"><\/a><\/p>\n<p>\u00c0 guisa de amostra, seguem alguns momentos daquela (auto) goza\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>A obra \u00e9 um roubo. O leitor \u00e9 um bobo. O autor \u00e9 um ladr\u00e3o. A autoria \u00e9 uma usurpa\u00e7\u00e3o. A cria\u00e7\u00e3o \u00e9 uma fraude. Criatividade \u00e9 repert\u00f3rio. Imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 mem\u00f3ria. Id\u00e9ia n\u00e3o \u00e9 propriedade. (n\u00famero 2, 1977)<\/p>\n<p>UM JORNAL SEM NOVIDADES. JD n\u00e3o \u00e9 o primeiro a dar as \u00faltimas, nem o \u00faltimo a dar as primeiras. JD s\u00f3 d\u00e1 mat\u00e9ria de segunda m\u00e3o, embora com segundas inten\u00e7\u00f5es. O \u00fanico furo do JD \u00e9 de tanto bater. Que o digam o seu vizinho direito do datil\u00f3grafo, o &#8220;o&#8221; min\u00fasculo e o caralho. JD: SEMPRE NA MESMA TECLA. (n\u00famero 16,1977)<\/p>\n<p>JD n\u00e3o se responsabiliza pelos conceitos assinados. Ali\u00e1s, JD n\u00e3o se responsabiliza nem pelas assinaturas&#8230; JD: O JORNAL QUE ASSINA O LEITOR. (n\u00famero 19,1977)<\/p>\n<p><em>&#8220;O Jornal Dobrabil <\/em>\u00e9 mesmo uma caixinha de surpresas. O que mais me impressionou foi a total irresponsabilidade pelas mat\u00e9rias, assinadas ou n\u00e3o. Tudo parece ap\u00f3crifo. Voc\u00ea e Pedro assinam como pr\u00f3prias cita\u00e7\u00f5es alheias, d\u00e3o como alheias cita\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias e, quando indicam o verdadeiro autor, adulteram suas palavras, enxertando termos que jamais usou. Isso \u00e9 que \u00e9 dar ao diabo o que \u00e9 de C\u00e9sar e a C\u00e9sar o que \u00e9 de Deus. E viva o anarquismo!&#8221; \u2011 Arthur da T\u00e1vola, Rio, RJ<\/p>\n<p>(N\u00f3s inda fazemos mais que isso: \u00e0s vezes damos ao Diabo o que \u00e9 dele e nos apropriamos de nossas pr\u00f3prias palavras. Arte gratuita bem entendida \u00e9 isso: dar e tomar, sem olhar a quem. \u2011 Glauco Mattoso)<\/p>\n<p>&#8220;Entrei na de voc\u00eas e estou mandando uns pensamentos que surrupiei do Pascal. Quem sabe voc\u00eas conseguem contrabande\u00e1\u2011los como produto marxista.&#8221; \u2011 Luiz Carlos MacieI, Rio, RJ.<\/p>\n<p>(Mas quem disse que queremos impingir Pascal por Marx? Isto, por exemplo \u2011 &#8220;\u00c9 muito melhor conhecer algo acerca de tudo que tudo acerca de uma coisa s\u00f3: o universal \u00e9 sempre melhor.&#8221; \u2011 s\u00f3 tem gra\u00e7a se for assinado por Rockefeller. Marx assinaria melhor algo como &#8220;\u00c9 prefer\u00edvel ser dono de um valent\u00e3o que escravo de dois.&#8221; \u2011 Pedro o Podre) (n\u00famero 19,1977)<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/colecaolivrodeartista.eba.ufmg.br\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/mattoso00022.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-2426\" src=\"http:\/\/colecaolivrodeartista.files.wordpress.com\/2012\/04\/mattoso00022.jpg\" alt=\"mattoso00022\" width=\"584\" height=\"458\"><\/a><\/p>\n<p>O g\u00eanio n\u00e3o passa dum med\u00edocre maior que os outros. A originalidade \u00e9 apenas uma imita\u00e7\u00e3o melhor que as outras. E talvez nem isso: se uns autores e suas obras ganham import\u00e2ncia, \u00e9 porque o p\u00fablico n\u00e3o conhece todos os autores, e nenhum autor \u00e9 conhecido por todo o p\u00fablico. (n\u00famero 21, 1977)<\/p>\n<p>Est\u00e3o me comparando ao Mill\u00f4r Fernandes. Isso n\u00e3o \u00e9 injusto, por\u00e9m encerra um equ\u00edvoco. Claro que o Mill\u00f4r \u00e9 um aut\u00eantico g\u00eanio do pl\u00e1gio inteligente, e eu seu disc\u00edpulo, mas ele se considera um humorista, e eu apenas um artista. A diferen\u00e7a est\u00e1 em n\u00f3s, n\u00e3o no que fazemos. Pois, pra todos os efeitos, o humor s\u00f3 pode ser trazido a s\u00e9rio, e a arte \u00e9 rid\u00edcula. (n\u00famero 26, 1979) Todo grande cl\u00e1ssico da literatura \u00e9 um pl\u00e1gio, ainda que n\u00e3o intencional. E todo grande manifesto da vanguarda \u00e9 um cl\u00e1ssico, ainda que n\u00e3o intencional. Os pequenos pl\u00e1gios s\u00e3o intencionais, ainda que n\u00e3o. (n\u00famero 28,1979)<\/p>\n<p>H\u00e1 t\u00edtulos t\u00e3o bons que n\u00e3o deveriam ter livro. E h\u00e1 pl\u00e1gios t\u00e3o bem feitos, que o original n\u00e3o deveria existir. Mas j\u00e1 que t\u00eam e existem, o jeito \u00e9 plagiar os t\u00edtulos e intitular os pl\u00e1gios. (n\u00famero 28, 1979)<\/p>\n<p>Arte \u00e9 tudo aquilo que n\u00e3o tem utilidade ou que, tendo utilidade, a questiona (questiona\u2011se a utilidade de alguma coisa usando a coisa para outra utilidade ou a utilidade para outra coisa). Antiarte seria tudo que, embora aparentemente in\u00fatil, tem a utilidade de mostrar que a arte n\u00e3o tem utilidade. A est\u00e9tica, portanto, n\u00e3o existe, pois sempre se descobrem utilidades para aquilo que \u00e9 art\u00edstico, e sempre se inventam artes para aquilo que \u00e9 utilit\u00e1rio, e assim n\u00e3o se podem estabelecer leis para separar o \u00fatil do agrad\u00e1vel e o in\u00fatil do desagrad\u00e1vel. (n\u00famero 14, 1977)<\/p>\n<p>A cr\u00edtica \u00e9 a arte de avaliar a arte. Como a arte n\u00e3o vale nada, a cr\u00edtica \u00e9 in\u00fatil. Sendo in\u00fatil, \u00e9 necessariamente uma arte e igualmente importante. Dar\u2011lhe a devida import\u00e2ncia consiste, pois, em n\u00e3o lev\u00e1\u2011la a s\u00e9rio. (n\u00famero 15, 1977)<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/colecaolivrodeartista.eba.ufmg.br\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/mattoso00023.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-2427\" src=\"http:\/\/colecaolivrodeartista.files.wordpress.com\/2012\/04\/mattoso00023.jpg\" alt=\"mattoso00023\" width=\"584\" height=\"414\"><\/a><\/p>\n<p><em>Glauco Mattoso \u00e9 poeta, ensa\u00edsta,fic<\/em><em>cionista e desenhista. Seus \u00faltimos livros publicados s\u00e3o: <\/em>Rockabillyrcy, <em>de 1988 (poesia); A <\/em>estrada do roqueiro: ra\u00edzes, ramos &amp; rumos do rock brasileiro, <em>de 1988 (ensaio); As <\/em>solas do s\u00e1dico, <em>de 1990 (fic\u00e7\u00e3o); As <\/em>aventuras de Glaucomix, o ped\u00f3latra, <em>de 1989, em parceria com Marcatti (hist\u00f3ria em quadrinhos).<\/em><\/p>\n<p>Mattoso, Glauco. Jornal Dobrabil. 34 Letras, Rio de Janeiro, Editora 34, n\u00ba 5\/6, setembro de 1989.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Glauco Mattoso. Jornal Dobrabil S\u00e3o Paulo: Iluminuras, 2001. Glauco Mattoso Em 1977, quando morava no Rio, dei in\u00edcio \u00e0 publica\u00e7\u00e3o dum boletim sat\u00edrico cuja repercuss\u00e3o superou minhas expectativas mais ambiciosas. 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